Caminho da Fé (3º dia)

“Fazer uma peregrinação é um modo de buscar respostas para nossas perguntas mais profundas. As respostas estão todas dentro de nós, mas é tão grande nossa tendência a esquecer que algumas vezes precisamos aventurar-nos a uma terra distante para despertar nossa memória. Nosso eu intuitivo se fechou; nossa luz para a transcendência se apagou.” 

(Luiz Carlos Marques da Silva)

Acordei cedo e para minha decepção o tão esperado sol não deu as caras. E para piorar ainda mais, chovia a cântaros. Virei de lado e voltei a dormir, pois não estava nem um pouco a fim de sair pedalar debaixo de chuva forte. Levantei pouco antes das 10h00min, tomei café e arrumei minhas coisas. Esperei mais um tempo e ao meio dia subi na bike e saí pedalando debaixo de uma chuva fina. Ao atravessar o centro da cidade uma caminhonete parou ao meu lado e o motorista perguntou se eu estava percorrendo o Caminho da Fé. Diante de minha resposta afirmativa, ele disse que já tinha feito o Caminho da Fé oito vezes, sempre a cavalo. Desejou-me sorte e foi embora. Não demorou muito e vi em um poste a primeira seta amarela indicando a direção que deveria seguir. Quase no limite da cidade segui por uma descida íngreme e no final dela descobri que o freio traseiro não estava funcionando. Com bastante dificuldade consegui parar a bike e fui checar o freio. Nesse momento passava um senhor com dois cachorros. Ele perguntou se eu estava fazendo o Caminho da Fé e qual era o problema com a bike. Diante de minha resposta ele convidou-me para ir até sua casa que era logo ao lado e na garagem da casa consertou o freio da bike. Sua esposa e seu pai vieram me falar um “oi” e fui convidado para o almoço. Recusei educadamente, agradeci pela ajuda, despedi-me de todos e peguei a estrada. Todos os dias ao levantar faço minhas orações e peço que somente pessoas boas cruzem meu caminho. Pelo visto meus pedidos estão sendo atendidos.

Logo ao sair da cidade o asfalto terminou e entrei em uma estrada de terra. A primeira subida não demorou a aparecer. Mesmo com as marchas leves falhando e trocando sozinhas, consegui subi-la pedalando. Os primeiros quilômetros foram alternando curtas retas, pequenas descidas e curtas subidas. Parei perto de uma fazenda para descansar e um cachorro com cara de poucos amigos veio correndo e latindo em minha direção. Protegi-me atrás da bicicleta e quando o cachorro vinha de um lado, eu ia para o outro lado da bicicleta. Até parecia que estávamos brincando de pega-pega. Comecei a conversar com o cachorro até ele se acalmar e parar de latir. Então ele virou-se e foi embora. Subi na bike e saí dali o mais rápido possível. A chuva voltou forte e segui pedalando no meio do barro, tomando cuidado para não cair.

Cheguei num trecho onde se iniciou uma grande seqüência de descidas. Arrisquei bastante descendo rapidamente e se meu freio não tivesse sido consertado pouco antes, teria tido sérios problemas nesse trecho. Acabei me animando com as descidas e exagerei na velocidade. Teve um final de descida que estava muito liso, com bastante barro e não deu para frear direito. Dessa vez pensei que ia cair, cheguei a gritar “vou cair!”. O coração disparou e mesmo derrapando muito consegui sair ileso e sem cair. Depois desse apuro resolvi ser menos audacioso.

Passei por uma bela fazenda, num trecho de muito barro. Não vi ninguém, era domingo e com chuva não se via ninguém fora das casas. Passei por um bambuzal e deparei-me com uma subida bastante íngreme. Mais uma vez tive que descer e empurrar a bike. Depois da subida peguei uma longa reta e atravessei dois mata-burros. Para quem não sabe, mata-burro é uma pequena vala, ou ponte de tábuas espaçadas, que serve para evitar a passagem de animais. Após passar pelo segundo mata-burro, parei e comi algumas frutas que tinha levado para o almoço. Mordi um caqui marrento e fiquei o resto do dia com gosto ruim na boca. Em frente do lugar que parei, tinha uma fazenda com construções bem antigas. A região onde estava pertenceu no passado a barões do café. Escravos trabalhavam nos cafezais e com o fim da escravidão no Brasil em maio de 1888, muitos imigrantes italianos vieram trabalhar nas lavouras da região. Hoje em dia o café e os barões do café fazem parte da história e onde se plantava café, atualmente se planta cana ou laranja. Senti vontade de ir até a fazenda e pedir para tirar fotos das construções antigas. Mas logo mudei de idéia, pois a chuva aumentou, não vi viva alma na fazenda e fiquei com receio de ter novo problema com cachorros, já que ouvia muitos latidos vindos da fazenda.

Segui em frente, atravessei um trecho muito bonito, cercado de palmeiras. Em seguida cheguei numa estrada asfaltada, onde tive que pedalar pelo canto da pista, pois a estrada não tinha acostamento. Menos de dois quilômetros pedalando pela estrada asfaltada e voltei para uma estrada de terra, seguindo as setas amarelas que indicavam o caminho. Esse trecho era bonito, alternava pequenas subidas com pequenas descidas. Numa reta vi ao lado da estrada uma garça branca, muito bela. Ela se assustou ao me ouvir se aproximar e não deu tempo de tirar uma foto dela. Mais um pouco pedalando na lama e cheguei novamente a uma estrada asfaltada. Olhei no guia e vi que o restante do caminho seria pela estrada asfaltada, o que não era má idéia com tanta chuva que estava caindo. Essa nova estrada asfaltada também não tinha acostamento e tive que seguir bem no cantinho da pista. O interessante foi que a maioria dos carros ao passar por mim mantinham uma boa distância. Muitos carros chegavam a invadir a pista contrária para ficar bem distantes de mim. Apenas um ou outro FDP é que passavam muito perto, mas eu estava esperto e em nenhum momento corri algum tipo de risco. Logo entrei em uma região de serra, com muitas descidas no início. Tomei cuidado para não correr muito, principalmente nas curvas, pois com a pista molhada seria fácil derrapar e cair. Desci o tempo todo com os olhos no odômetro e quando atingia a velocidade de 40 km/h, metia a mão no freio, pois 40 km/h era meu limite de segurança naquela estrada. Passei em um trecho que tinha tanta água na pista que a roda da frente jogava água em meu rosto, me obrigando a manter a boca fechada para não engolir água suja. Como tudo que desce tem que subir, logo cheguei a um trecho de muitas subidas. O jeito foi descer e empurrar a bike.

Terminando o longo trecho de subidas, surgiram novas retas e descidas. Ao longe avistei a cidade de Tambaú, meu próximo destino. Na parte final peguei chuva e vento de frente. Senti muito frio, pois estava completamente molhado. Para quem estava resfriado na semana anterior, chuva e frio não faziam nada bem. Cheguei à conclusão de que pedalar com a capa de chuva não resolve muito. Em vez da capa de chuva deveria ter levado um anorak ou então um casaco impermeável. Outro problema a resolver em futuras viagens de bike é a questão do calçado. Com chuva o tênis fica ensopado. Talvez um tênis ou sapatilha impermeáveis resolvam tal problema. De qualquer forma essa viagem é mais um aprendizado, visando viagens maiores no futuro.

Passava um pouco das 16h00min quando cheguei a Tambaú. As setas que indicavam o caminho, de repente seguiam por uma escada ao lado da estrada. Mesmo sendo poucos degraus, foi bastante sofrido subir pela escada com a bike carregada. Logo depois vi que o caminho seguia por uma rua paralela a estrada por alguns metros e depois virava em direção à cidade. Nessa hora xinguei o autor do guia. Bem que ele podia ter colocado isso no guia, que somente os caminhantes deveriam subir a escada e que os ciclistas deveriam seguir mais uns metros pela estrada e depois virar, seguindo em direção a cidade. Isso teria poupado um esforço enorme, principalmente no meu caso que tenho duas hérnias de disco. Em outros momentos da viagem também achei o guia falho. Ele deveria separar melhor as informações para ciclistas e caminhantes.

Segui pedalando pela periferia da cidade e logo cheguei à catedral. Tirei a já tradicional foto em frente à igreja e fui para um hotel ali perto. Estava morrendo de frio. No hotel me dediquei à rotina de tirar o equipamento da bike, limpar o barro e colocar o que estava molhado para secar. Em seguida banho quente e cama. No final da tarde saí debaixo de chuva à procura de um local para lanchar. Tive que andar um monte até encontrar um lugar aberto. Lanchei e voltei para o hotel, onde coloquei o diário de viagem em dia. Próximo ao hotel estava tendo carnaval de rua e o barulho estava incomodando. Fechei bem as janelas do quarto para não ouvir as horríveis músicas carnavalescas e fui dormir, mais uma vez sonhando com um amanhecer ensolarado no dia seguinte.

Partindo de Santa Rita, numa manhã de domingo.

Estrada enlameada.

No lado esquerdo da foto o cão que me atacou.

Bela estrada.

Passando pelo mata-burro.

Trecho bastante escorregadio.

Fim da terra e início do asfalto.

Longo trecho de asfalto.

Escada na chegada a Tambaú.

Catedral de Tambaú – SP.

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